Pequenas hipocrisias

Esta semana estava refletindo no modo como nos relacionamos com Deus. Geralmente é assim: "Deus, muito obrigado pelo alimento que está sobre a mesa, pela saúde, pelo trabalho e por todas as coisas boas que metêm acontecido. Em nome de Jesus, Amém.”

Mas há dias... “Pô Deus, mais essa agora! Não deveria ter acontecido, que golpe baixo... Como é que eu vou crer que Tu estás no controle se deixas este tipo de coisa acontecer?”
 
Qual das duas é mais sincera? Provavelmente as duas. Mas a segunda parece mais visceral, menos plástica. Embora num primeiro momento seja transgressora, acredito que ela expressa de verdade o modo como está se sentido a pessoa que a proferiu. Não é isso que todos buscam num relacionamento: verdade, transparência, sinceridade? Penso que Deus espera isso de nós também. 
 
Mas qual é o problema com a primeira oração? Nenhum, do ponto de vista da boa vizinhança. É como estar na casa de alguém que não vejo frequentemente e sorrir o tempo todo para ser cortês, agradecendo-lhe a hospitalidade ao final da visita. É claro que eu não vou dizer que o filé estava mal passado para o meu gosto e que o pelo do cachorro grudou na minha roupa, coisa que detesto, já que não tenho pet. Seria grosseiro de minha parte. Mas verdadeiro também. Eu não diria por que não tenho intimidade com o anfitrião. 
 
Esta palavra é mágica: intimidade. Ela dá acesso à geladeira da casa, nos deixa à vontade com os pés em cima da mesa de centro. Mas pode ser indigesta também. Quando alguém muito próximo faz algo que nos irrita, como reagimos? Não com cortesia, certamente. Quando meu irmão mais novo faz algo que desaprovo, vou logo vomitando minha achologia pra cima dele, persuadindo-o a ver as coisas sob meu ponto de vista sem a menor cerimônia (a irmã chata). Visceral outra vez. É a intimidade que temos que me dá essa liberdade. Já quando uma pessoa comenta sobre seu sobrinho que age de modo parecido com ele, a verborréia é diferente. Quero dizer a mesma coisa, porém, escolho melhor as palavras. Não tenho intimidade para agir de outro modo! 
 
Eu pensava que não poderia dizer a Deus coisas pelas quais pudesse me arrepender depois. Eu não queria errar com Deus. E ainda não quero, só que também cansei do discurso plastificado. Quero poder dizer: “Não gostei, Deus, acho que você precisa saber disso. Não entendo essa parte, queria que fosse diferente. Mas sei que ainda és o mesmo Deus que me amou e me escolheu há tantos anos... Me ajude com isso, Pai, pois sozinha vou sucumbir.” 
 
Vejo os salmos repletos disso: contradições, furor, ira, tristeza profunda, lágrimas. Momentos de fraqueza são, afinal, aceitáveis diante de Deus, não são? Acessos de fúria também. E o que faz com que sejam? A intimidade. Um amigo fala ao outro do fundo de sua alma, fala daquilo que aos demais fica escondido sob sete chaves. Feliz daquele que tem Deus por amigo! A intimidade com Deus nos faz conhecer quem ele é, e isso é suficiente para ter certeza de que está ali, pertinho, ouvindo, dando tempo ao tempo, fazendo a esperança renascer, frequentemente, já ao final da lamúria.
 
A intimidade muda até a oração da bonança. Em vez de “obrigado Senhor por tudo o que tem me dado, amém”, como se Deus fosse o funcionário contratado, fazendo apenas o que deveria fazer, surge um “Pai, isso é incrível. Eu não mereço e mesmo assim a tua bondade me alcança! Estou constrangida... muito obrigada!”. 
 
Não pretendo sair por aí dizendo o que me dá na telha. Quem perguntou minha opinião? 
 
Mas acho que, para com Deus, este é um caminho. 
 
Um abraço, 
Dallen F. Cardoso. 
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