“O Conde de Monte Cristo” é um excelente livro para se ler nas férias. De Alexandre Dumas, conta a saga de um jovem que vê seus sonhos morrendo pouco a pouco nas mãos de inimigos que o prendem injustamente. Dezessete anos ele passou num calabouço fedido e sombrio numa fortaleza de pedra no meio de uma ilha. Até que um dia conseguiu escapar de forma inimaginável: colocara o corpo do prisioneiro que morrera na cela vizinha em sua própria cama, paratomar o lugar dele na mortalha que o envolvia. Os guardas, que voltaram tão somente para pegar o defunto ensacado, nem desconfiaram que carregavam um vivo. Achegaram-se à beira do penhasco e... jogaram-no aos tubarões! Sendo um romance de 02 volumes, é de se supor que ele tenha sobrevivido. E de forma não menosincrível.
(Pretende ler o livro? Saiba que eu vou contar o final. Prossiga daqui pra frente por sua conta e risco...)
É fácil imaginar o que se passava na cabeça daquele homem, agora livre, durante sua peregrinação de volta à vida. Naturalmente, ele queria encontrar cada um dos três covardes que lhe roubaram os melhores anos da juventude para efetivar sua vingança. Ele assume outra identidade – a de Conde de Monte Cristo – e passa a conviver com seus antigos algozes, infiltrando-se em suas famílias e na sociedade que frequentavam, para assim descobrir-lhes as fraquezas.E o faz tão inteligentemente que é impossível parar de ler até descobrir o próximo passo. O autor foi magnânimo no desenrolar da história, caracterizando muito bem os diversos personagens da trama. No final,eleconsegue o que quer.
Já fazem alguns meses que li este livro, mas só agora, relendo “Maravilhosa Graça”, de Philip Yancey, é que parei pra pensar o seguinte: eu estive o tempo todo torcendo pela vingança do Conde! Eu, cristã há tantos anos, conhecedora da Palavra como qualquer fariseu... Queria que seus inimigos pagassem por todo o sofrimento que lhe fora tão detalhadamente imputado. Desejei justiça. Olho por olho. Esqueci-me completamente da graça, do perdão, do olhar amoroso de Deus... Talvez, dezessete anos preso injustamente seja tempo demais para se perdoar. Talvez, humilhação, fome, desespero e um estado de quase-loucura seja um pacote terrível demais para a graça. Será?
Yancey comenta o episódio do ladrão da cruz como poucos teriam coragem de admitir: ele não merecia aquele perdão, não fez nada para merecê-lo. Logo, não foi justo perdoá-lo. Ah... mas o perdão não é justo mesmo. A graça de Deus alcança qualquer pessoa que se dispuser a aceitá-la, e isso inclui os maus: o ladrão da cruz, o servo infiel, o filho pródigo... eu... você. Cada um, do ponto de vista racional, não merecia o perdão que recebeu. Mas a graça é assim, injusta. Por ela – e só por ela – nós fomos salvos.
Se o Conde de Monte Cristo tivesse perdoado seus inimigos ao sair da masmorra, o livro acabaria nos capítulos iniciais e provavelmente não seria um clássico da literatura como é. Para muitos seria ridículo, sem sal, sem nexo. Mas aos vingativos de plantão, um aviso: depois de sua tão almejada vitória, há um trecho emocionante em que ele fala com Deus - aos prantos! - pedindo perdão caso tenha extrapolado as regras, caso tenha ido longe demais no seu direito de subjugar o outro. Percebem a ironia? Quem passou a vida buscando se vingar para encontrar a paz, só a encontrou de fato quando buscou o perdão.
A lei nos dá direito à revanche. A graça apenas perdoa. Mas, nas palavras do próprio Yancey, ela éa ÚNICA coisa que nos diferencia dos demais.
Dallen Fragoso Cardoso
Membro do MBCV